Páginas

domingo, 25 de julho de 2010

UMA MANHÃ DIFÍCIL

Se subisse a ladeira um pouco mais rápido ainda podia pegar o pão quentinho. Mas Herenice naquela noite quase o matara. Mulher prá mais de dois. Mas também não sabia nem se ia chegar vivo no alto do morro. Não só pelo cansaço. É que naquele dia estava marcado um acerto de contas entre duas facções. Todos andavam com seus arreios como escudo. Não olhavam para os lados, nada diziam ou sabiam, além do fato de que chegar vivo em casa era só uma das opções daquele dia. Mas se chegasse, o mundo podia até se acabar, uma hecatombe. Para ele não importava. Lugar seguro era sua cama. Ali nada poderia o atingir ou o incomodar. Mas para isso, ele tinha que chegar. Ao ouvir os primeiros tiros pensou nas probabilidades o desafiando a sobreviver. Estava na linha de tiro. Na fadiga da empreitada, errara de mão, perdera o caminho e estava exatamente onde as duas falanges apontavam e imaginam que tudo que ali aparece só pode ser artimanha do inimigo. PÔW!!! O segundo tiro assustou mais do que o primeiro. Não que tenha sido mais próximo ou o tenha acertado, mas era a certeza de que era ele quem estava no centro da mira. Assombrou-se com a própria capacidade de lembrar nome de tantos santos de quem nem era devoto, prometendo mundos e fundos se o livrassem dali. Tentou manter a cabeça calma durante percurso, repetindo para si mesmo que o que tiver de ser, será. Talvez isso lhe tenha salvado a vida, pois ao perceberem que o alvo andava devagar, como quem não tem pressa ou medo, imaginaram que podia tratar-se de um amigo e por precaução era melhor suspender fogo. Os dois lados cessaram os tiros. Avistou seu barraco a duzentos metros de distância, visto daquela perspectiva de quem mais parece estar cumprindo penitência do mais depravado dos pecados, a sensação era de quem ia em direção do mais luxuoso palácio. Foi quando sentiu a dor aguda na base da coluna, como um choque dado com agulha e não conseguia se mover para nenhum dos lados. Não sabia nem como ia pedir ajuda, todo mundo com ar assustado, e ele sentindo a dor de um tiro ao dar cada passo. Mesmo assim foi vencendo cada metro de subida como quem enfarta e precisa ser reanimado. Mas chegou, enfim, na porta do barraco. Só empurrou com mais força a porta para não precisar perder tempo com a chave. Não comeu, não se lavou, não rezou. Jogou-se na cama, feito pára-quedista um segundo após o derradeiro passo de dentro do avião. E nem sentiu a bala que o atingiu, perdida, enquanto dormia. Já estava morto de cansaço.